A nova linha do tempo da vida na Terra e o elo invisível entre micélios e florestas
Fungos: os primeiros colonizadores da terra firme
Um novo estudo publicado na revista Nature Ecology & Evolution redefiniu a história da vida na Terra: os fungos surgiram muito antes das plantas. A pesquisa, liderada por cientistas do Okinawa Institute of Science and Technology (Japão) e da Universidade de Bristol (Reino Unido), reconstruiu a árvore evolutiva mais detalhada dos fungos já feita.
Usando dados genéticos de 110 espécies de fungos, combinados com fósseis e registros de transferência horizontal de genes — quando genes saltam entre espécies diferentes —, os pesquisadores criaram uma linha do tempo surpreendente.
Segundo o estudo, o ancestral comum de todos os fungos modernos viveu entre 1,4 bilhão e 900 milhões de anos atrás. As plantas terrestres, por outro lado, só apareceram muito depois, entre 612 e 431 milhões de anos atrás. Isso significa que, quando as primeiras algas começaram a se adaptar à vida fora da água, os fungos já estavam ali — preparando o terreno.
O artigo mostra também que esses fungos antigos tinham genes capazes de quebrar pectina, uma substância presente nas paredes celulares das algas e das plantas. Isso indica que os fungos já participavam de relações simbióticas primitivas, ajudando na decomposição e na ciclagem de nutrientes. Em outras palavras, eles podem ter sido os engenheiros originais do solo terrestre, transformando rochas em húmus e possibilitando o nascimento das futuras florestas.
Essas descobertas reforçam que o chamado “bilhão entediante” (entre 1,8 e 0,8 bilhão de anos atrás) pode não ter sido tão entediante assim. Em silêncio, sob mares rasos e margens pantanosas, a vida microscópica estava se organizando, tecendo as primeiras tramas do ecossistema terrestre — com os fungos no papel de protagonistas.
A internet viva das florestas
Se os fungos foram os primeiros a pisar na terra, antes mesmo das plantas existirem, então eles são também os primeiros arquitetos da vida terrestre. Muito antes de folhas e flores, havia apenas uma rede invisível de filamentos — micélios — espalhando-se pelo solo primordial, dissolvendo minerais e criando pontes bioquímicas entre o inorgânico e o vivo.
Essas redes antigas são as ancestrais daquilo que hoje chamamos de “internet dos fungos”: teias subterrâneas compostas por bilhões de fios microscópicos capazes de transportar nutrientes e sinais elétricos entre árvores e plantas. É por meio dessa rede que uma floresta “pensa”, reage e se mantém viva.
Esse conceito de rede de micélios pensando foi explorado nos livros da série Amazofuturismo (do autor Rogério Pietro), em especial o conto Amazônia Viva. Dentro desse universo ficcional, o conceito foi batizado com o nome de Cyberamazônia pelo autor de ficção científica Rogério Pietro.
Na Amazônia, o micélio forma uma infraestrutura biológica colossal, interligando raízes, bactérias, insetos e detritos. É como se a floresta inteira respirasse através dessa rede — uma inteligência difusa e silenciosa que se estende sob o solo há milhões de anos.
Sob a lente do Amazofuturismo, o micélio se torna um símbolo de outro tipo de tecnologia: uma tecnologia viva, baseada na cooperação e na regeneração, não na extração. Enquanto nossas redes digitais consomem energia e isolam, a rede dos fungos integra, conecta e sustenta.
O futuro pode estar enraizado nessas redes antigas. Talvez a evolução não tenha seguido uma linha de progresso, mas uma trama de interdependências — e os fungos sejam a lembrança viva de que toda forma de inteligência começa no solo.
Referência científica
Szánthó, L. L. et al. (2025). A timetree of Fungi dated with fossils and horizontal gene transfers.
Nature Ecology & Evolution. DOI: 10.1038/s41559-025-02851-z
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