O verdadeiro significado de muiraquitã
Os muiraquitãs são talismãs de jade feitos na Amazônia por um povo originário, e seu nome significa “pequena rã”.
Os muiraquitãs são artefatos arqueológicos característicos, geralmente esculpidos em forma de sapos, utilizando pedra verde e apresentando dois furos laterais que sugerem seu uso como pingente. Esses objetos eram produzidos pelos povos indígenas Tapajó/Santarém e Conduri, habitantes do Baixo Amazonas. Acredita-se que sua confecção exigia instrumentos engenhosos, além de grande paciência e habilidade por parte dos artesãos. Os muiraquitãs desempenhavam múltiplas funções: eram utilizados como amuletos protetores, símbolos de status e poder, além de servirem como itens de troca ou compra. Envolvendo essas pequenas esculturas, há ainda uma rica tradição oral, composta por lendas e mitos, especialmente ligados às enigmáticas índias guerreiras conhecidas como Amazonas.
As guerreiras amazonas foram vistas pelos exploradores espanhóis que navegaram pelo rio recém-descoberto, e o encontro com elas ficou registrado pelo Frei Gaspar de Carvajal em 1542, que foi cronista da expedição de Francisco de Orellana pelo rio Amazonas. Vários exploradores que vieram depois, ouviram histórias das amazonas, e tiveram contato com os muiraquitãs. De acordo com os registros, a fabricação desses talismãs estava diretamente ligada às Amazonas.
Em 1662, Maurício Heriarte já havia registrado em seus escritos a existência desses amuletos, utilizando nomes variantes como baraquitās, buraquitās, puúraquitan, uuraquitan e mueraquitan. Posteriormente, em 1735, Charles-Marie de La Condamine descreveu amuletos em forma de batráquios (anfíbios) esculpidos em pedras verdes semelhantes à jade. No século XIX, os naturalistas Spix e Martius também se referiram a esses objetos, chamando-os de pierres divines, ou “pedras divinas”, igualmente em forma de batráquios usados como pingentes. No final do século XIX, Barboza Rodrigues consolidou o termo muyrakytā, que mais tarde seria adaptado por Barata, em 1954, para a forma hoje mais conhecida: muiraquită.
No século XVIII, enquanto a Europa observava com fascínio os mistérios da América do Sul, cientistas e exploradores começaram a cruzar o oceano em busca de conhecimento e descobertas. Entre eles, destacou-se Charles-Marie de La Condamine, que entre 1735 e 1745 percorreu as imensas águas do rio Amazonas. Ao passar pelo Baixo Amazonas — onde hoje ficam cidades como Óbidos, Faro, Nhamundá e Santarém, então habitadas pelos povos Tapajó —, La Condamine se deparou com algo que chamou sua atenção: pequenas pedras verdes, cuidadosamente guardadas pelos indígenas, como se fossem verdadeiros tesouros.
Encantado com o achado, La Condamine foi um dos primeiros europeus a registrar o uso desses artefatos. Chamadas também de “pedras das Amazonas”, remetiam às histórias lendárias das guerreiras indígenas que povoaram os relatos de antigos cronistas como Frei Gaspar de Carvajal.
Mas o que significa a palavra muiraquitã?
Embora a origem do termo muiraquitã ainda seja objeto de debate, hoje se aceita, de modo geral, que se trata de um vocábulo de origem tupi, com a forma fonética [mïraki’tă], tipicamente amazônica. A grafia muiraquitã, consagrada no Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, tornou-se a forma mais comum desde que foi adotada por Barata em 1954. Em seu estudo, baseado em correspondência com Max Boudin, Barata propôs que a palavra derivaria de expressões tupis como pu’ir-a(w)ki-(i)ta ou mu’ir-a(w)ki-(i)tā, cujos elementos significam: pu’ir ou mu’ir = missangas, contas, enfeites; a(w)ki = mexer, usar, tocar; ita = uma espécie de sapo ou rã.
Então, de acordo com o senso comum, que aceita a interpretação de Barata (1954), muiraquitã significaria algo como “rã de enfeite usada como missanga”.
No entanto, essa interpretação precisa ser contestada, tanto pela complexidade incomum da formação da palavra, quanto pela fonética muito distanciada do som que a palavra muiraquitã tem. Para que muiraquitã seja proveniente de mu’ir-a(w)ki-(i)tā são necessárias muitas inferências, sem contar que ita em Tupi significa pedra, e não sapo ou rã.
Com base nessa introdução, propomos aqui uma nova e inédita interpretação para o significado da palavra muiraquitã. Essa nova compreensão do termo se baseia nos locais geográficos onde os próprios talismãs foram encontrados. Óbidos, Faro, Nhamundá e Santarém são indicados como sítios arqueológicos importantes para essas peças. A cidade de Óbidos, em especial, é importante por se localizar perto da foz do rio Trombetas. E, de acordo com estudos recentes, o encontro dos exploradores espanhóis com as indígenas Amazonas, narrado por Carvajal (1542), pode ter acontecido nas praias de Óbidos, a julgar pela descrição geográfica do cronista.
Portanto, considerando que a cultura indígena relaciona os muiraquitãs com as Amazonas, que os exploradores dos séculos passados também o fazem, que as Amazonas provavelmente foram vistas em Óbidos, e que os estudos arqueológicos encontraram nessa mesma região os talismãs em questão, temos muitas evidências apontando para um mesmo caminho.
Tendo, então, a localização geográfica, precisamos compreender quais povos viviam ali e quais línguas eles falavam. A interpretação de muiraquitã com base apenas no Tupi é um reducionismo inaceitável, haja vista ser o Tupi a mais conhecida língua indígena no Brasil, ela não é nem de longe a única. Em Óbidos, por exemplo, considera-se que os indígenas Pauxis tenham dominado a região por ocasião da passagem de Carvajal. Eles provavelmente falavam uma variação do Tupi antigo.
No entanto, segundo relato de um indígena capturado pelo capitão Francisco de Orellana, as mulheres guerreiras vinham de longe, de sete dias de jornada dali, e elas governavam todas aquelas terras. O rio Trombetas, já citado como importante, tem uma extensão de 760 quilômetros. Em suas margens e entorno viveram e vivem dezenas de povos indígenas falantes de muitas línguas distintas.
Uma dessas línguas é o Hixkaryana, falada pelo povo que leva o mesmo nome. E existe nela a palavra murha, que significa literalmente rã.
Estamos propondo que o povo indígena que produziu os talismãs originais de jade, em forma de batráquio, fosse falante de Hixkaryana ou de uma variante dessa língua. Eles conheciam o talismã como murha, um objeto possivelmente sagrado, que continha o espírito do animal nele.
Considerando ainda que esse povo deve ter tido uma influência muito grande na região, a ponto de exportar seus talismãs, a palavra murha pode ter sido incorporada por povos de outras línguas, com fonemas um tanto variados (bara, bura, puúra, uura e muera).
Entretanto, o talismã de tamanho reduzido pode ter tido um acréscimo no nome. Ao chegar na região de Óbidos e Santarém, eles podem ter acrescentado o termo “pequeno”, para designar as peças sagradas. E em Tupi, “pequeno’ se diz aquitã.
As dimensões dos exemplares desses talismãs variam consideravelmente: seu comprimento oscila entre 44 e 64 milímetros, a largura entre 22 e 57 milímetros, e a espessura entre 15 e 19 milímetros.
Portanto, a palavra muiraquitã pode ser a junção de duas palavras, uma da língua Hixkaryana (murha), e outra do Tupi (aquitã), dando origem a murhaquitã, a pequena rã.
Mais conteúdo
Para conhecer mais a respeito das Amazonas, leia o livro Guerreiras Amazonas.
Se quiser ler o relato do Frei Gaspar de Carvajal, que narra como foi o encontro com as indígenas Amazonas, leia o livro Descobrimento do Rio das Amazonas.
Fontes e embasamentos
Hoje, a maioria dos Hixkaryana vive às margens do médio rio Nhamundá, que marca a divisa entre os estados do Amazonas e do Pará. Os antepassados dos Hixkaryana fazem parte de um contexto mais amplo de povos Karíb que ocuparam tradicionalmente a bacia do rio Trombetas, especialmente no médio curso e em entornos como Cachoeira Porteira e confluência com o rio Mapuera.
A palavra aquitã ou akitãi é referida em alguns dicionários Tupi-Português com a tradução de “curto, pequeno, de baixa estatura.” Ela difere da palavra em Tupi mirim ou mirĩ, que também pode ser traduzida como pequeno, e está relacionada a menino, criança. Nem todos os dicionários possuem essa palavra, o que é compreensível quando lembramos que o Tupi é um tronco linguístico com variantes regionais.
A cultura Konduri parece estar relacionada ao povo indígena que conhecemos como as Amazonas. No relato do cronista Frei Gaspar de Carvajal, é dito que a líder das Amazonas era conhecida como Conhori. Existe a grande possibilidade de Conhori e Konduri serem referentes à mesma coisa. Além disso, a arqueologia tem apresentado peças de cerâmica extraídas da região dos rios Trombetas e Nhamundá conhecidas como Konduri. É justamente a região onde os muiraquitãs foram encontrados.
Referências
DERBYSHIRE, Desmond C. Textos Hixkaryâna. Belém: Conselho Nacional de Pesquisas, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Museu Paraense Emílio Goeldi, 1965. 206 p.
COSTA et al. Muyrakytã ou muiraquitã, um talismã arqueológico em jade procedente da Amazônia: uma revisão histórica e considerações antropogeológicas. Acta Amazônica, v. 32, n. 3, jul.–set. 2002. DOI: 10.1590/1809‑43922002323490.
ATUDUCAX (Associação da Turma Duque de Caxias – AMAN). Acervo TuDuCax – diretório do portal Aman62. Disponível em: https://aman62.com/dir.html . Acesso em: 30 jul. 2025.
DE QUEIROZ, Ruben Caixeta. Hixkaryana. In: POVOS INDÍGENAS NO BRASIL. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2018. Disponível em: https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Hixkaryana . Acesso em: 30 jul. 2025.
*Dicionário Tupi‑Guarani / Português*. Scribd, [S. l.], s. d. Disponível em: <https://pt.scribd.com/document/12721268/Dicionario-Tupi-Guarani>. Acesso em: 30 jul. 2025.
MUSEU VIRTUAL DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA – UnB. Glossário de termos bororo: Aisó: formosa, loura (abati, auati). Disponível em: http://bororo.museuvirtual.unb.br/index.php/en/user-page/item/50-glossario#:~:text=*%20Ais%C3%B3:%20formosa.,loura%20(abati%2C%20auati). Acesso em: 30 jul. 2025.
AVISO: ao usar as informações desta página, referencie corretamente a fonte para não se igualar a jornalistas e grandes portais de comunicação despreocupados com as fontes originais das ideias.
Fatos Rápidos
- O que é um muiraquitã?
É um talismã indígena em forma de rã verde. - O que significa muiraquitã?
A palavra muiraquitã significa pequena rã.



