Artigos sobre Amazofuturismo

O Amazofuturismo e o desmatamento.

Quem já escreveu Amazofuturismo? As duas primeiras grandes antologias do gênero

por | jul 26, 2026

O amazofuturismo não nasceu de um único livro, nem pertence a um único autor. Como acontece com os movimentos literários que realmente encontram força e vitalidade, ele começou a se expandir quando outros escritores passaram a imaginar seus próprios futuros amazônicos.

A partir de 2020, duas antologias reuniram dezenas de autores brasileiros em torno de uma mesma possibilidade: projetar a Amazônia para o futuro por meio da ficção científica. São elas Encantarias: histórias de uma Amazônia futurista, publicada pelo Coletivo Visagem, e Amazofuturo: histórias amazofuturistas, publicada pela Editora Cyberus. Juntas, essas duas obras reúnem 26 autores de contos e representam um momento fundamental na consolidação da literatura amazofuturista brasileira.

Mais do que simples coletâneas, esses livros registram o momento em que diferentes escritores passaram a explorar, cada um à sua maneira, a união entre tecnologia, futuro, ancestralidade indígena, crise ambiental, mitologia amazônica e os povos originários da floresta.

2020: Encantarias e o nascimento de uma literatura coletiva

Publicado em Manaus, em 2020, Encantarias: histórias de uma Amazônia futurista foi realizado pelo Coletivo Visagem e tornou-se uma das primeiras grandes experiências coletivas de ficção amazofuturista. A obra foi contemplada pelo Prêmio Manaus de Conexões Culturais e reuniu seis contos de autores amazonenses, além de um texto final dedicado ao Amazofuturismo.

O livro apresenta seis histórias, cada uma assinada por um autor diferente:

  • Jefter HaadAtos de Rebelião;
  • Leila PlácidoCápsula do tempo;
  • Luiz AndradeXapono;
  • Jan SantosProjeto I.A.R.A.;
  • Carol PeaceAbaré;
  • Dante SabóiaLendas esquecidas.

O volume é encerrado por João Queiroz, autor do texto Acerca do Amazofuturismo. A edição também contou com Tammy Rosas na revisão e edição e Yan Bentes na capa e no projeto gráfico.

A importância de Encantarias está justamente na diversidade de suas propostas. Em Atos de Rebelião, Jefter Haad imagina uma Amazônia futura marcada pela devastação ambiental e pela resistência. Leila Plácido, em Cápsula do tempo, trabalha com memória, história e a preservação de um passado que corre o risco de ser apagado. Luiz Andrade, em Xapono, constrói uma narrativa que aproxima tecnologia, ancestralidade indígena e a sobrevivência da floresta.

Em Projeto I.A.R.A., Jan Santos imagina uma descoberta científica capaz de devolver a vida a um mundo devastado. Carol Peace, em Abaré, leva a reflexão amazofuturista para uma escala cósmica, discutindo o futuro da humanidade depois da restauração da Amazônia. Já Dante Sabóia, em Lendas esquecidas, aproxima o futuro tecnológico das narrativas ancestrais e da memória mítica.

O resultado é uma obra que demonstra, desde seus primeiros momentos, que o amazofuturismo não precisa seguir uma única fórmula. Ele pode ser distopia, aventura, ficção científica ecológica, exploração espacial, fantasia tecnológica ou uma releitura do imaginário indígena. O que importa é a possibilidade de imaginar o futuro a partir da Amazônia.

2022: Amazofuturo amplia o mapa do amazofuturismo

Dois anos depois, o movimento ganhou uma nova dimensão com a publicação de Amazofuturo: histórias amazofuturistas (vol. 1), organizada por Menkell Rodrigues e publicada pela Editora Cyberus.

A antologia nasceu de uma campanha de financiamento coletivo realizada em 2021 e foi publicada em 2022. O projeto reuniu vinte histórias inéditas e escritores de diferentes regiões brasileiras, ampliando significativamente o alcance geográfico da literatura amazofuturista. A obra recebeu prefácio de Rogério Pietro e posfácio de Menkell Rodrigues.

Os vinte autores reunidos em Amazofuturo são:

Alexandre Torres, Allan Azevedo, André Vilar, Camila Fogase, Eduardo F. F. de Abreu, Fabio Müller, Guilherme Giublin, Gutemberg Löwe, Igor Moraes, Leonardo C. de Campos, Luiz Gustavo, Mateus Braga, Maurício Bonham, Rafael Moia, Ricardo Celestino, Ricardo Lima, Ronaldo Ventura, Thais Nunes, Vitor da Silva Gonçalves e Yasmin Moita.

A proposta da coletânea era ambiciosa: mostrar que o amazofuturismo poderia ser apropriado por escritores de diferentes origens e sensibilidades. O próprio projeto apresentava as vinte histórias como diferentes galhos de uma mesma árvore em crescimento. A imagem é especialmente feliz: existe um tronco comum — a imaginação de futuros amazônicos —, mas cada autor projeta seus próprios ramos, personagens, conflitos e possibilidades.

Entre os contos, citamosum destaque especial para “Espelho Quebrado”, de Camila Fogase, que segue os Cinco Pilares do Amazofuturismo.

Vinte e seis autores, dois livros e uma nova possibilidade de futuro

Quando observamos as duas antologias em conjunto, percebemos a dimensão do que aconteceu em apenas dois anos.

Em 2020, Encantarias reuniu:

Jefter Haad, Leila Plácido, Luiz Andrade, Jan Santos, Carol Peace e Dante Sabóia.

Em 2022, Amazofuturo ampliou essa rede com:

Alexandre Torres, Allan Azevedo, André Vilar, Camila Fogase, Eduardo F. F. de Abreu, Fabio Müller, Guilherme Giublin, Gutemberg Löwe, Igor Moraes, Leonardo C. de Campos, Luiz Gustavo, Mateus Braga, Maurício Bonham, Rafael Moia, Ricardo Celestino, Ricardo Lima, Ronaldo Ventura, Thais Nunes, Vitor da Silva Gonçalves e Yasmin Moita.

São 26 autores de ficção reunidos em duas antologias fundamentais da literatura amazofuturista.

E essa lista não deve ser entendida apenas como uma relação bibliográfica. Cada nome representa uma pessoa que, em algum momento, decidiu olhar para a Amazônia e perguntar: como será o futuro?

As respostas foram diferentes. Algumas imaginaram sociedades em conflito. Outras pensaram na destruição ambiental, na resistência indígena, na recuperação da floresta, na inteligência artificial, na ciência, na exploração espacial ou na permanência das lendas ancestrais em um mundo tecnologicamente transformado.

É justamente nessa pluralidade que reside a força do amazofuturismo.

A literatura não se desenvolve quando todos escrevem a mesma história. Ela cresce quando diferentes autores partem de uma mesma possibilidade e a levam para lugares inesperados.

Encantarias e Amazofuturo são, portanto, registros de uma etapa decisiva da ficção científica brasileira. São livros que mostram que o futuro não precisa ser imaginado apenas a partir de metrópoles, naves espaciais, cidades cibernéticas ou paisagens estrangeiras.

O futuro também pode nascer da floresta.

Pode falar línguas indígenas. Pode carregar mitos ancestrais. Pode surgir entre árvores, rios, aldeias, laboratórios e redes tecnológicas. Pode ser construído por povos que durante séculos foram excluídos das narrativas sobre o amanhã.

E, sobretudo, pode ser escrito por autores brasileiros.

A história do amazofuturismo ainda está sendo escrita. Mas, quando essa história for contada no futuro, os nomes reunidos em Encantarias e Amazofuturo ocuparão um lugar especial: o daqueles escritores que ajudaram a demonstrar que a Amazônia não é apenas um cenário para histórias sobre o passado.

Ela também pode ser o lugar de onde imaginamos o futuro.

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