Artista paraense conquista destaque com sua arte
Gabriel Cardoso (GC ARTE) é artista visual, ilustrador, quadrinista, designer, diretor criativo e criador do Afrofuturismo Amazônico.
Nascido no bairro do Jurunas, em Belém, no coração da Amazônia brasileira, seu trabalho explora as interseções entre ancestralidade, identidade negra amazônica, tecnologia, memória cultural e futuros especulativos. Por meio da ilustração, das histórias em quadrinhos, da arte digital, do design, da direção criativa, do desenvolvimento de universos narrativos (worldbuilding) e de projetos interdisciplinares, cria narrativas visuais que reimaginam a Amazônia como um centro de inovação, resistência, produção de conhecimento e construção de futuros.
Você pode conhecer mais do trabalho dele acessando sua rede social: @gc_arte
Confira abaixo a entrevista exclusiva com Gabriel Cardoso
1 — Para você, como é fazer essa interface entre ancestralidade e futurismo? Como isso guia a sua arte?
Primeiramente, eu não falo de futurismo. O Futurismo é um movimento artístico específico, que teve uma relação muito forte com a exaltação da máquina, da industrialização e, historicamente, também com ideias fascistas. Ele não tem relação com o Afrofuturismo. A semelhança está apenas no uso da palavra “futurismo.”, Que hoje, o movimento Afrofuturista resignifica.
Quando eu falo de Afrofuturismo Amazônico, eu falo de pessoas negras e indígenas criando tecnologia a partir do próprio território.
E tecnologia, para mim, não é só aquilo que a gente entende como tecnologia hoje. Nossos povos já desenvolveram tecnologias ancestrais, conhecimentos, formas de manejo do território, de comunicação, de cura, de construção e de organização da comunidade.
Mas também existe a tecnologia contemporânea. Existem indígenas utilizando câmeras para registrar o que acontece dentro dos seus territórios, utilizando redes sociais para comunicação, utilizando ferramentas digitais para educação, denúncia e mobilização.
Então existe uma diferença fundamental: não é sobre a máquina substituir o ser humano. É sobre o ser humano criar tecnologia para fortalecer a própria comunidade.
É essa interface entre ancestralidade, presente e futuro que guia o meu trabalho.
Eu acredito que o futuro não é uma coisa predeterminada. O futuro é criado. E ele é criado pelas escolhas que fazemos hoje: pelos nossos movimentos de resistência, pela educação, pelo compartilhamento de conhecimento e pela capacidade de transformar aquilo que recebemos dos nossos ancestrais em novas possibilidades.
O Afrofuturismo Amazônico, para mim, está justamente nesse lugar: entre o presente que estamos vivendo e o futuro que estamos tentando criar.
Um futuro em que pessoas negras e indígenas não sejam apenas representadas dentro das tecnologias, mas sejam reconhecidas como criadoras dessas tecnologias, protagonistas dos seus territórios e responsáveis por imaginar seus próprios futuros.
2 — Você sempre expressou suas raízes culturais por meio da arte ou houve um momento de virada?
Eu acho curioso porque, olhando para a minha trajetória hoje, eu percebo que talvez eu nunca tenha conseguido fazer outra coisa.
Eu sempre tive muita dificuldade para desenhar personagens de outras pessoas. Eu nunca consegui simplesmente pegar um personagem da Marvel ou da DC e reproduzir no meu estilo. Para fazer isso, eu preciso praticamente copiar o personagem como um desenho de observação.
Eu sou um artista muito mais autoral. Eu sempre tive necessidade de criar meus próprios personagens, minhas próprias histórias e meus próprios mundos.
Eu até tentei muito seguir esse caminho porque, obviamente, existe aquela vontade de um dia trabalhar para grandes editoras. Mas eu percebi que a minha potência não estava em reproduzir o que já existia.
Estava em criar. O artista é aquela pessoa que assume a responsabilidade de criar o que não existe ou o que ele não vê no mundo.
E tudo que eu crio como artista, é atravessado pelo lugar onde eu vivo ou vivi em algum momento da minha vida.
Eu nasci e cresci no Jurunas, em Belém, mas também vivi em outros territórios da Amazônia, como Macapá, Mazagão, Abaetetuba e Tucuruí. Cada um desses lugares deixou alguma coisa em mim.
Então minhas histórias começaram a carregar naturalmente essas experiências. A periferia, a Amazônia, as pessoas, as paisagens, as contradições, a cultura, a ancestralidade.
O momento de virada foi justamente quando eu entendi que isso não era uma limitação do meu trabalho.
Era a maior potência dele.
Eu não precisava aprender a reproduzir o território dos outros. Eu precisava aprender a olhar para o meu próprio território e criar a partir dele.
3 — O que é o Afrofuturismo Amazônico?
O Afrofuturismo Amazônico começou como um conceito dentro da minha pesquisa, mas hoje eu estou trabalhando para que ele se torne também um movimento, junto com outras pessoas que vêm pensando e produzindo nessa direção, como a Yas Laranjas (@yaslaranjas), que eu costumo chamar de mãe do Afrofuturismo Amazônico.
Ele nasce a partir do Afrofuturismo, mas olha especificamente para a experiência de pessoas negras, afrodescendentes, quilombolas, ribeirinhas e indígenas dentro do território amazônico.
Porque o território amazônico nos atravessa de uma maneira muito particular.
Eu costumo dizer que a Amazônia é quase um ser consciente. Não estou falando apenas do bioma como paisagem. Estou falando de um território que interfere na nossa cultura, na nossa cosmologia, na maneira como a gente se relaciona com o tempo, com a natureza, com a comunidade e com o próprio mundo.
E esse conceito também nasce de referências muito específicas da nossa história e da nossa cultura.
A Cabanagem, como o único movimento de resistência popular de negros e indígenas que chegou ao poder no Brasil, sempre importante ressaltar isso.
O carimbó, que nasce desse encontro de culturas negras e indígenas.
As aparelhagens, que são um exemplo incrível de tecnologia criada e desenvolvida pela periferia de Belém.
Os encantados, que fazem parte de cosmologias indígenas e continuam atravessando a nossa vida, como pessoas amazônidas.
E as próprias periferias de Belém, como o Jurunas, onde eu vi nascer artistas, músicos, histórias e tecnologias culturais o tempo inteiro.
Então, para mim, o Afrofuturismo Amazônico é uma maneira de perguntar:
O que acontece quando pessoas negras e indígenas da Amazônia passam a imaginar e construir seus próprios futuros a partir da experiência que possuem nesse território?
É isso que eu estou tentando investigar através da arte.
4 — Quais projetos você pretende seguir daqui em diante?
Neste momento, eu estou escrevendo e produzindo a Master Bible do meu próprio universo.
Quando comecei a pesquisar mais profundamente a minha trajetória, percebi que eu venho construindo esse universo desde 2014, muito antes de eu pensar em ser artista. São personagens, histórias, conceitos e ideias que foram sendo criados ao longo dos anos e que, de alguma maneira, sempre refletiram aquilo que eu estava vivendo e aquilo em que eu acreditava.
Agora eu estou organizando tudo isso.
Meus próximos projetos envolvem histórias em quadrinhos, ilustração, concept art e principalmente worldbuilding, porque eu quero transformar essa pesquisa em uma propriedade intelectual.
Também estou passando por uma transição na minha carreira. Durante muito tempo, meu trabalho esteve muito ligado às artes visuais, às galerias, às exposições e à criação de séries de obras.
Agora eu quero levar essa pesquisa para outro lugar.
Quero construir mundos.
Quero criar personagens que possam existir em diferentes histórias, desenvolver quadrinhos, concept art, narrativas e, no futuro, expandir esse universo para outras mídias.
E o mais interessante é que eu estou trabalhando nisso há muitos anos.
O que eu estou fazendo agora não começou agora.
É algo que vem sendo construído silenciosamente desde 2014 e que, em 2026, finalmente está começando a tomar uma forma maior.
Eu ainda não posso revelar muita coisa.
Mas posso dizer que existe um universo inteiro sendo organizado por trás das obras que eu venho apresentando.
E talvez, daqui para frente, vocês comecem a perceber que aquelas imagens que pareciam obras isoladas…
na verdade sempre fizeram parte da mesma história.
Confira abaixo o trabalho de GC ARTE



